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Entrevista - Revista Lume

 

DEUS AJUDA A QUEM CEDO MADRUGA
(Cláudia Cavallo - Revista Lume - Ano IV - nº 27)

 

Aos 13 anos, Auro morava na Móoca, em São Paulo.

Não era exatamente coroinha, mas quase isso; ajudava na arrumação da igreja de São Genaro, na qual ocorre uma tradicional festa popular todos os anos.
Enquanto "acompanhava a reza", pensava numa boa forma de ajudar o padre a conseguir recursos para suas obras.

Hábil na arte da negociação desde menino, logo descobriu que no auditório da igreja havia um projetor de cinema e, junto com um amigo, começou a passar desenhos animados para a criançada e filmes de amor para as senhoras, nas tardes de domingo.

"A gente anunciava durante a missa, na hora dos Salmos, e a sessão lotava. Dava para arrumar uma graninha" - recorda.


Os galpões impressionam pela limpeza e organização...

Da "graninha" saía uma comissão para Auro e seu amigo, pelo serviço.

De tostão em tostão, a caixinha dos meninos ia engordando.
Um dia, decidiram fazer um showzinho no auditório. Foi sucesso.
A partir daí, outras comunidades católicas começaram a chamá-los para fazerem pequenos eventos.

Paralelamente, Auro inventava estrobos com espelhos e motor de vitrola, para iluminação de festinhas na casa dos amigos.

Um ano mais tarde, deu um passo maior. Alugou um teatro "de verdade" para promover um show de rock. Contratou uma banda, cujo vocalista era o Ritchie - na época recém-chegado da Inglaterra, mal falava português.

Usou a iluminação do teatro as engenhocas das festinhas. Deu certo.
Lotação esgotada nos três dias. Até Rita Lee foi assistir.

Aos 14 anos, Auro já era empresário. Comprou um show da Rita e negociou de pagar outros dois no local. Ele e o amigo-sócio fizeram sozinhos a produção, iluminação, colaram cartazes na rua, carregaram caminhão, venderam ingresso… A partir da Rita, vieram os Mutantes, festivais, Ney Matogrosso… quando deu por si, Auro tinha tornado-se iluminador.

Da "graninha" saía uma comissão para Auro e seu amigo, pelo serviço.

De tostão em tostão, a caixinha dos meninos ia engordando.
Um dia, decidiram fazer um showzinho no auditório. Foi sucesso.

A partir daí, outras comunidades católicas começaram a chamá-los para fazerem pequenos eventos.

Mais tarde, foi convidado a entrar em sociedade numa empresa de locação de som e luz.


...consequência do perfeccionismo de Auro, que mantém os equipamentos como novos.

Trabalhou com os maiores artistas nacionais, fez shows internacionais que vinham ao Brasil, festivais da TV Globo... A esta altura era líder no mercado de iluminação. Desfez a sociedade, abriu a Aurolights, acumulando experiências e memórias que dariam um livro.

Aos 45 anos de idade, 31 de profissão, Auro se diz privilegiado por ser um dos poucos no mundo que trabalham com o que gostam e ainda ganham dinheiro.

 


 

Lume: Você é empresário por opção ou por pressão?

Auro: Por obrigação. Gostaria de viver como iluminador até hoje, mas quem tem empresa sabe o quanto os negócios exigem tempo, presença, abdicação.

De vez em quando tenho chance de iluminar um espetáculo e faço com a maior satisfação, mas tenho estado mais atrás da mesa de escritório que da mesa de luz.

 

 

Lume: "No seu tempo" - vamos dizer assim - o Brasil tinha muito poucos iluminadores e ninguém pensava em "ficar rico" iluminando show. Era muito mais uma questão de paixão e oportunidade que de escolha profissional. Hoje, existe até concorrência de lighting designers. Uns terão mais sucesso, outros menos. Você acha que esta seleção se tem dado por influência ou competência?

Auro: Para começar, acho que, no Brasil, deveríamos usar o termo iluminador mesmo, em vez de lighting designer.

Quanto à questão de influência ou competência, de fato este é um mercado que funciona muito na base da indicação, mas isto acontece em vários outros mercados. Hoje em dia, todo mundo prefere não correr riscos e trabalhar com quem já confia ou tem uma boa referência. O problema é que, de 10 anos para cá, o Brasil começou a ter equipamento e qualquer um que tenha aprendido a mexer numa mesa ou moving light acha que sabe fazer luz.

Fazer luz, no entanto, exige muito mais conhecimento. É preciso avaliar o perfil do artista, do público, conhecer as letras das músicas, a cenografia, a disposição dos músicos, bailarinos e cantores no palco. Estes são apenas alguns ítens básicos para se executar um projeto de iluminação.

Um bom projeto de iluminação não se faz em um mês apenas. O mercado brasileiro ainda não possibilita este capricho, mas caminha neste sentido.

 

 

Lume: A Aurolights foi quase que absoluta em serviços de locação durante anos. Quando a empresa começou a ter que dividir o mercado com outras?

Auro: A participação da Sunshine no Hollywood Rock, investindo pesado na compra de equipamento, foi o início de uma mudança nos rumos do mercado.

Perdi a concorrência na realização daquele evento, mas ainda não chegava a ser um incômodo. A divisão começou mesmo quando apareceram os moving lights e se intensificou quando pessoas saíram das "origens" para abrirem suas próprias empresas. Da Sunshine saíram o Ivo (Prisma), Djalma (Feeling), Jesus (Moonlight)... Comigo, trabalharam o Marquinhos Olívio (Spectrum), Zé Luiz
(CPL e ex-Oficina), Bolinho (Zuluz), o Césio (LPL)…

Foi uma consequência natural e praticamente todos nós mantemos laços de amizade até hoje. Embora sejamos concorrentes, nos ajudamos mutuamente, trabalhamos juntos em muitos eventos. Entretanto, outros profissionais e empresas foram surgindo e não têm a mesma política de qualidade que a gente e, por isso, "queimam" preços. Querem dinheiro imediato e não se importam com quanto tempo seu equipamento ou sua empresa vão durar.

Há quinze anos atrás, cobrava-se 10 mil dólares por um serviço completo, incluindo energia elétrica e transporte, utilizando 300 lâmpadas PAR e 16 movings, o que era muito equipamento. Hoje, tem gente cobrando 5 mil reais.

 

 

Lume: Qual é o cálculo que se faz para determinar o valor de uma locação?

Auro: Sou de origem mais técnica que administrativa, devo confessar que não faço nenhuma equação para determinar valores, mas posso garantir que não há como alugar um equipamento que custa 8 mil dólares por 70 reais. Quando a concorrência chega neste nível, eu nem entro.

Custa caro manter o equipamento constantemente funcionando, limpo e sempre investir na atualização de novas tecnologias. Não amarro vara de refletor com arame, uso fiação de primeira, cabo de aço adequado, invisto em curso de segurança para os profissionais que trabalham aqui… Agora estamos fazendo um case que é um armário com kits individuais de segurança para os montadores. Tudo isso custa dinheiro.

 

 

Lume: E o cliente percebe, valoriza?

Auro: Depende do cliente. Alguns só pensam em preço. Alugam doze unidades pelo menor valor, mesmo que na hora só oito funcionem. Outros querem um serviço no qual possam confiar. É como escolher entre um táxi que faz barulho e um novo com ar-condicionado, ou entre um supermercado com barata e outro que tem estacionamento e um cara para ensacar os produtos.

Ganhamos a concorrência para fazer a turnê da Marisa Monte e não foi devido ao preço, mas pela confiança que eles depositaram na Aurolights e na capacitação da nossa empresa em cumprir todas as exigências técnicas que envolviam o espetáculo. A produção não aceitaria equipamentos velhos, sujos, um sistema inseguro e uma equipe pouco experiente, mesmo que custasse a metade do preço.

Duas empresas podem ter a mesma quantidade de moving lights, mas isso não significa que ambas têm cabos suficientes e em perfeito estado ou mesa reserva para o caso de dar uma pane. É preciso ter uma estrutura de apoio para sustentar o que está à vista de todos.

 

 

Lume: É verdade que você foi representante da Martin antes da Pro Shop?

Auro: Sim, a aproximadamente 5 anos atrás. Mas como a Aurolights sempre estava sobrecarregada de trabalhos, não tinha tempo de dedicar-me a distribuição dos produtos como deveria.

De qualquer forma valeu a pena, porque os laços que ficaram me possibilitam boa negociação com a Pro Shop e a Martin - cuja fábrica, tive o prazer de conhecer pessoalmente.

 

 

Lume: No Brasil não é muito fácil introduzir no mercado uma marca nova de produto de iluminação, mesmo que o produto seja bom. Representantes dizem que é questão de "modismo", fabricantes nacionais definem como preconceito. Por que existe esta "resistência"?

Auro: Uma empresa de locação tem que fornecer o equipamento que é especificado pela produção do artista, consequentemente, pelo iluminador. Logicamente, no mundo inteiro existem preferências por uma ou outra marca ou modelo. No Brasil, entretanto, muitos iluminadores não querem usar um produto novo ou a que não estejam acostumados, simplesmente porque não sabem usar.

Alguns se interessam por aprender, outros não. Isto também se aplica ao equipamento nacional. É mais fácil para uma locadora investir num produto que qualquer iluminador quer trabalhar a correr o risco de não ser aceito. A não ser quando faz convenções ou eventos fechados.

Tem sido difícil para algumas "marcas novas" no Brasil entrarem com força no mercado de grandes shows, mas estão tendo sucesso em instalações fixas, por exemplo.

 

 

Lume: Algumas empresas e profissionais estão "saindo" do mercado de shows e se voltando para os eventos corporativos. Defendem que os shows são uma satisfação pessoal, mas que os eventos corporativos são economicamente melhores. Como tem sido para a Aurolights?

Auro: É verdade que quando a gente faz um show, dá orgulho de ver. Imagino como deve ter sido para o Césio fazer o Rock in Rio, saber que gente do mundo inteiro viu. Isso é muito legal. Ter reconhecimento, notoriedade, a sensação de fazer bonito… é o prazer desta profissão. Não é só a "grana" que conta. Claro que se pudermos unir o útil ao agradável, melhor. O problema é que, quando se tem uma empresa, há custos a serem mantidos.

Não é possível trabalhar só pela paixão e, como eu disse antes, surgiram empresas que baixaram demais os preços.
O mercado de show era melhor quando existiam as turnês. Mesmo que se cobrasse um pouco mais barato o valor unitário, ganhávamos no montante. Começávamos em Porto Alegre e acabávamos em Belém, com o mesmo equipamento, a mesma equipe. Agora, as produções levam uns 24 movings no máximo e pegam a iluminação local, seja ela qual e como for.
Felizmente, muitos empresários estão percebendo que esta não é a melhor forma de economizar.

O público está mais exigente e prefere o show bem produzido, bonito, com tudo que se vê nas capitais.

 

 

Lume: Desconsiderar o serviço local não extermina as empresas de interior? Não é uma visão preconceituosa?

Auro: Não. Quem está no interior tem trabalho na sua região, como as festas de peão boiadeiro, por exemplo. A iluminação no Brasil deu um salto enorme em muito pouco tempo. Há empresas no interior que prestam bom serviço. Não estou defendendo que só serve quem está na capital.

Quando uma locadora de grande porte vai para o interior com uma turnê, não significa que está ameaçando o mercado das empresas locais. Pelo contrário. Como, normalmente, estas turnês trabalham com equipamentos de última geração e mão-de-obra mais especializada, o show torna-se uma oportunidade dos técnicos locais terem acesso a mais informação, estarem em contato com outros profissionais, verem equipamentos novos, como funcionam, quais são os resultados na prática.

 

 

Lume: É uma história parecida com o que aconteceu com as grandes empresas brasileiras em relação às turnês internacionais?

Auro: Sim. E ainda acontece. Mesmo sabendo que uma locadora daqui tem condições de realizar um projeto do tamanho do Rock in Rio, se os Rolling Stones vêm ao Brasil trazem seu próprio sistema de palco, porque o grupo tem uma quantidade e diversificação muito grande de equipamento.

Além disso, é tudo integrado ao cenário. Por melhores que sejam nossas empresas e profissionais, trata-se de um serviço que tem de ser suprido por uma equipe e fornecedor que acompanhem a turnê do início ao fim. Numa situação desta, nós, como empresas locais somos contratados apenas para dar suporte ou fazer a iluminação da platéia.

 

 

Lume: Qual é o futuro das empresas brasileiras de locação?

Auro: A padronização. O pessoal começou a usar Socapex ontem. Eu uso multipino, porque optei por este tipo de conexão há vinte anos atrás e, naquela época, não havia como importar nada. Os boxes também diferem de uma empresa para outra. Os da minha são padrão oito pés. Em outras, o padrão é seis pés. Há ainda quem use padrões diferentes destes.

Do jeito que está hoje, ainda não temos como unir completamente sistemas de diferentes locadoras. Ainda não somos tecnicamente compatíveis da maneira ideal.

 

 

Lume: Você comentou que as pessoas que saíram das "origens" como a Sunshine, por exemplo, acabaram se tornando os empresários de hoje. A geração de profissionais posterior a esta, ao que parece, está mais preocupada em ser lighting designer do que dono de empresa. É uma nova tendência?

Auro: Na "nossa" época, a gente nem cobrava para operar. Fazíamos pelo prazer e ganhávamos uma grana alugando o pouco que tínhamos. Quisemos ter nosso próprio negócio, porque era o sonho de todo iluminador.

Imagino que a preferência por ser lighting designer é maior nos dias de hoje pois, diferentemente daquela época, os iluminadores e operadores conseguem receber uma boa remuneração pelos seus serviços.

Além de terem maior consciência das dificuldades e responsabilidades de se administrar uma empresa.

 

 

Lume: Como é o dia-a-dia da Aurolights? Você trabalha só com free lancers? Os equipamentos têm manutenção sempre que chegam ou antes de saírem do galpão?

Auro: Por atuarmos em vários segmentos, o escritório está sempre borbulhando. Nossa equipe é composta por diversos profissionais fixos divididos em vários setores como: manutenção elétrica e eletrônica, mecânica e pintura, setor de gelatinas e gobos, manutenção de moving lights, expedição e transporte. Além desses, há uma lista de free lancers, os quais costumamos contratar em rodízio para poder gerar oportunidades a todos.

Fabricamos nossos próprios main power e racks. Manutenção e limpeza de equipamento fazemos o tempo todo. No Credicard Hall e Direct Music Hall, mal terminou o ano, desmontamos tudo, trocamos toda a fiação, tiramos os dimmers, fizemos manutenção em tudo, colocamos mais equipamento, trocamos cabos de aço.

 

 

Lume: Se você pudesse teria escolhido outra profissão?

Auro: Nem que eu ganhasse mais. Adoro o que faço, mesmo com a parte chata.

Sinto-me um privilegiado porque faço parte de 1% das pessoas no mundo que trabalham com o que gostam e ainda ganham dinheiro.

 

 

 

 

 


 

 

 

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